Quando a Parentalidade entra na Infância
- 1 day ago
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A parentalidade pode ser definida pelas funções e práticas desenvolvidas no decorrer do laço estabelecido entre o adulto e a criança, com vista ao primeiro assegurar o cuidado e
desenvolvimento do segundo. Tal como a Psicóloga Mariana Negrão descreve “a parentalidade (...) é influenciada por vários fatores, entre os quais, as experiências com os
respectivos pais e mães (...)”, destacando-se uma dimensão crucial e frequentemente
negligenciada nas discussões sobre os desafios da parentalidade - a forma como as
experiências precoces durante a infância afetam a forma como cuidam e exercem a sua
parentalidade com os seus filhos.
Ignorar o papel da Psicogenealogia no funcionamento familiar significa ignorar a importância da influência da herança psíquica entre diferentes gerações. Ao reconhecermos os padrões associados aos nossos legados familiares, abrimos espaço para que a nossa infância entre na parentalidade de uma forma construtiva, consciente e positiva. É de extrema importância reconhecer que o adulto também tem uma criança interior, que não desaparece e que pode permanecer num lugar cristalizado de negligência e solidão, muitas vezes perpetuado pelo próprio adulto, inconsciente de que algumas necessidades emocionais não foram devidamente atendidas pelos seus cuidadores. Silenciamos a nossa criança ferida dizendo “Sempre tive comida na mesa e roupa lavada” e “Não tenho motivos de queixa, tive uma infância muito feliz”, esquecendo que a conexão segura com o adulto, o desenvolvimento da autonomia, o espaço para o lazer, a necessidade de ter limites realistas e a liberdade para expressar as suas emoções são necessidades emocionais básicas, igualmente importantes como as necessidades fisiológicas.
A parentalidade é acompanhada por uma grande vulnerabilidade. Por um lado remete o
adulto para a sua própria infância e a estas necessidades emocionais básicas que não foram
atendidas (mesmo que discreta e silenciosamente), mas por outro, transporta-o para o
presente e para a grande responsabilidade que é cuidar de uma criança em desenvolvimento.
Queremos que os nossos filhos sejam os melhores jogadores de futebol e que as nossas filhas sejam exímias no ballet, mas esquecemo-nos que esta expectativa foi construída com base num sonho de infância não vivido. Dizemos “Não chores” porque na infância não nos deram espaço para expressar a tristeza. Gritamos e castigamos quando nos sentimos desafiados pela criança porque foi-nos ensinado que a raiva não tinha um lugar para ser sentida de forma segura e aprendemos a manifestá-la de forma explosiva. Não celebramos uma boa nota da criança na escola porque educaram-nos para acreditar que o sucesso é uma obrigação e não algo que deva ser saboreado. Impomos regras rígidas e estruturas inflexíveis nas rotinas porque na nossa infância não houve espaço para o lazer e a espontaneidade.
É neste âmbito que a Psicologia assume um papel fundamental no autoconhecimento, em
concreto, apoiar a identificação destas experiências precoces na infância e a compreensão da sua influência na parentalidade. Sendo que as emoções são alterações fisiológicas do
organismo que servem para adaptar o corpo às exigências da situação, a Psicologia ajuda aperceber estes automatismos do corpo, quais são os “gatilhos” da infância que os ativam e de que melhor forma podemos reagir quando surgem. A Terapia Individual, de Casal, Familiar ou um acompanhamento ao nível do Aconselhamento Parental, assumem-se como importantes áreas de intervenção, no sentido de apoiar o adulto neste desafio transversal e comum na parentalidade.
Cuidar dos nossos filhos é também saber cuidar de nós. Ser (ou tornar-se) pai e mãe implica
perceber que, por vezes, o maior apoio que podemos dar aos nossos filhos começa na
promoção do próprio bem-estar e na cisão com padrões transgeracionais disfuncionais.
Dizem que o tempo cura tudo, mas para uma ferida sarar é preciso ser tratada primeiro.
Inês Leitão
Psicóloga Júnior | Nº Cédula 134580





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