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Nem toda a ansiedade deve ser eliminada

  • 1 day ago
  • 4 min read

Quantas vezes desejou simplesmente deixar de sentir ansiedade?

Talvez antes de uma reunião importante, de um exame médico ou perante uma decisão que poderá mudar o rumo da sua vida. Vivemos numa época em que a ansiedade é frequentemente vista como algo a eliminar rapidamente. No entanto, a ansiedade é uma emoção humana fundamental, desenvolvida para nos ajudar a identificar ameaças, antecipar desafios e mobilizar recursos para agir.

Quando sentimos ansiedade, não é apenas a nossa mente que reage, o corpo também participa, através de alterações como o aumento da frequência cardíaca, da tensão muscular e da vigilância do ambiente. Corpo e mente comunicam constantemente, e compreender a ansiedade implica olhar para o ser humano como um todo.

A dificuldade surge quando este sistema de alerta permanece ativado durante demasiado tempo ou reage de forma desproporcional ao contexto. Nesses momentos, a ansiedade deixa de cumprir uma função protetora e passa a gerar sofrimento.


Uma Reflexão atual

Talvez uma das ideias mais libertadoras da psicologia contemporânea seja esta: o objetivo da saúde mental não é eliminar as emoções desconfortáveis.

Durante muitos anos, fomos levados a acreditar que o bem-estar psicológico significava sentir-nos tranquilos, confiantes e felizes na maior parte do tempo. No entanto, a investigação sugere que a tentativa persistente de evitar ou controlar emoções desagradáveis pode contribuir para a manutenção do sofrimento psicológico, fenómeno conhecido como evitamento experiencial.

Se tem vivido com ansiedade, talvez saiba o quão desgastante pode ser sentir o corpo em alerta quando tudo o que deseja é descansar. Essa experiência merece compreensão e não crítica. Compreender a ansiedade não significa minimizar o sofrimento que ela provoca. Significa olhar para ela com maior curiosidade e menor julgamento.

Sentimos ansiedade porque nos importamos. Porque amamos. Porque queremos que algo corra bem. Porque estamos perante crescimento, mudança ou vulnerabilidade.

Em consulta, muitas pessoas descrevem um profundo cansaço por estarem constantemente a tentar controlar aquilo que sentem. Procuram afastar a ansiedade, eliminar os pensamentos ou garantir que nada de desconfortável acontece. Com o tempo, descobrem algo surpreendente: muitas vezes, o sofrimento não nasce apenas da ansiedade, mas da energia investida na tentativa de não a sentir.

A saúde psicológica não consiste em nunca sentir ansiedade. Consiste em desenvolver a capacidade de a compreender, regular e continuar a avançar na direção daquilo que é significativo para nós.


Como distinguir uma ansiedade saudável de uma ansiedade que merece acompanhamento clínico?

Nem toda a ansiedade é um problema. Um nível moderado de ativação pode ajudar-nos a manter o foco, a concentração e a capacidade de resposta. Já quando a ansiedade se torna demasiado intensa ou persistente, pode começar a interferir com o bem-estar e o funcionamento diário.

O cérebro nem sempre distingue uma ameaça real de uma ameaça antecipada. Por isso, muitas das reações físicas da ansiedade surgem perante situações que ainda não aconteceram. Aprender a regular o sistema nervoso no presente pode ser tão importante quanto compreender os pensamentos que nos preocupam.

Sabemos hoje que a regulação emocional não acontece apenas através da reflexão. O cérebro processa melhor as experiências difíceis quando o corpo também se sente seguro, reforçando a ligação entre emoções, pensamentos e sistema nervoso.


Desafio do mês

O exercício: "O que é que a minha ansiedade está a tentar proteger?"

Durante esta semana, experimente substituir a luta pela curiosidade.

Passo 1: Pare e observe

Quando notar sinais de ansiedade, faça uma breve pausa de 30 segundos.

Passo 2: Escute o seu corpo

Observe onde sente a ansiedade:

• No peito?• No estômago?• Nos ombros?• Na respiração?

Apenas observe, sem tentar alterar imediatamente a sensação.

Passo 3: Oriente-se para o presente

Olhe à sua volta e identifique:

• 3 coisas que consegue ver;• 2 sons que consegue ouvir;• 1 sensação física que consegue sentir.

Passo 4: Faça uma pergunta diferente

Em vez de perguntar:

"Como faço para deixar de sentir isto?"

Experimente perguntar:

"O que é que esta ansiedade está a tentar proteger?" ou "O que é importante para mim nesta situação?"

Passo 5: Escolha uma ação pequena e concreta

Dê um passo alinhado com os seus valores:

• Fazer aquela chamada que tem vindo a adiar;• Pedir ajuda;• Iniciar uma tarefa importante;• Ter uma conversa difícil, mas necessária.

O objetivo não é eliminar a ansiedade antes de agir. É aprender a agir mesmo quando ela está presente.


Sugestões Práticas

• Nem toda a ansiedade é sinal de doença.• A ansiedade pode ser um mecanismo adaptativo de proteção e preparação.• Corpo e mente influenciam-se mutuamente, ouvir os sinais físicos é uma parte importante da regulação emocional.• Tentar eliminar todas as emoções desconfortáveis tende a aumentar o sofrimento.• Pergunte-se o que a ansiedade está a comunicar antes de a combater.• Procure apoio profissional quando a ansiedade interfere significativamente com o seu funcionamento diário, nas relações ou na qualidade de vida.


Referências

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Escrito por: Psicóloga Ana Pinto

Cédula Profissional Nº: 30361

 
 
 

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