Tristeza nas crianças: aquilo que nem sempre se vê
- 1 day ago
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Muitas vezes associamos tristeza infantil, a comportamentos de isolamento, choro, ou pouca atividade por parte da criança. No entanto, a tristeza infantil raramente é tão linear e literal. A imagem que integramos de tristeza nem sempre corresponde às suas múltiplas facetas.
A tristeza passa despercebida quando se camufla de comportamentos ou atitudes que não correspondem ao tipicamente esperado, e passamos a ver comportamentos que escondem um sofrimento emocional como má educação, birras ou cansaço.
Neste artigo vamos poder aprender a identificar quando a agitação, a irritabilidade ou uma simples dor de barriga podem ser, na verdade, um pedido de ajuda silencioso.
Ao contrário de alguns adultos que se recolhem, isolam, apagam-se perante sentimentos de tristeza, muita crianças expressam o seu sofrimento através da reatividade. Irritabilidade frequente e explosões de raiva por motivos banais pode ser a forma como a criança está a processar esta angústia. Em contraste com a agitação emocional, temos também a agitação psicomotora. A criança não para quieta? Parece “elétrica” ou constantemente frustrada? Isto pode ser uma reação a um desconforto emocional que não sabe nomear.
E quando é o corpo a falar? Quando o vocabulário emocional ainda está em desenvolvimento, o corpo assume o papel de tradutor, ou porta-voz. Sendo assim, dores de cabeça e de barriga, são queixas muito comuns. Se após a procura da opinião do pediatra foram excluídas razões biológicas como causa, podemos estar perante algo emocional ao qual o corpo está a reagir. “Simples” mudanças como, mudanças no apetite e hábitos alimentares (comer de mais ou de menos), mudanças nos padrões de sono (dificuldade em adormecer ou pesadelos frequentes= são sinais importantes a ter em conta e que podem indicar depressão pediátrica.
Muitos pais perguntam-se se estas alterações são transacionais, fases pelas quais a criança está a passar. Para diferenciar uma fase de desenvolvimento normal de um quadro que exige intervenção, podemos utilizar a regra dos três:
Prestar atenção à persistência dos sintomas: a tristeza ou irritabilidade dura a maior parte do dia, quase todos os dias, por várias semanas?
Ficar atento/a à intensidade dos sintomas: O comportamento é desproporcional ao acontecimento/situação e parece "tomar conta" da criança?
E por último que impacto está ter no bem-estar da criança: A criança parou de brincar com o que gostava? O rendimento escolar caiu? As relações com amigos ou irmãos estão seriamente afetadas?
Agora que sabemos ao que dar atenção, como sabemos se é necessário procurar ajuda?
Existem sinais que não devem ser ignorados, podemos ver estes sinais como “sinais vermelhos”, e estes exigem avaliação e intervenção por um psicólogo ou pedopsiquiatra.
Se a criança apresenta, perda total de interesse em atividades que antes traziam alegria (ex: parar de querer jogar futebol ou brincar com os bonecos favoritos). A criança apresenta comportamentos de autoagressão ou fala muito recorrentemente sobre morte. Comentários como "queria desaparecer" ou "não devia ter nascido" devem ser sempre levados a sério, independentemente da idade. A criança isolasse, recusa sistemática em interagir com os pares, ou outras pessoas.
Descodificar os sinais invisíveis não é sobre ser um "pai detetive", mas sim um "porto seguro". Validar a emoção da criança, dizendo, por exemplo, "percebo que o teu corpo está a sentir-se agitado hoje, queres falar sobre isso?” é o primeiro passo para a cura.
Se o seu instinto diz que algo não está bem, confie nele. A intervenção precoce é a ferramenta mais poderosa para garantir que a infância volta a ser um lugar de descoberta, alegria e desenvolvimento saudável.
Referências:
- Luby, J. L., et al. (2003). The Clinical Picture of Depression in Preschool Children. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry.
- Baji, I. (2011). The Characteristics of Childhood Onset Depression According to Depressive Symptoms, Comorbidities and Quality of Life.
- Cole, P. M., et al. (2008). Emotions and the Development of Childhood Depression. Child Development Perspectives.
Escrito por: Nicole Moniz
Cédula Profissional: 31240





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