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Quando o comportamento é um sinal de cansaço emocional: Desregulação emocional nas crianças

  • 2 days ago
  • 2 min read

Nos últimos anos, tem-se verificado um aumento significativo de crianças encaminhadas para consulta de Psicologia com queixas de dificuldades de atenção, birras intensas, ansiedade, regressões no comportamento ou problemas de controlo emocional. Muitos pais chegam às consultas exaustos, com a sensação de que “já tentaram de tudo” e de que o comportamento da criança está cada vez mais difícil. A investigação científica ajuda-nos a compreender que, em muitos destes casos, o problema não é falta de limites ou de esforço, mas sim dificuldades de autorregulação associadas a stress emocional.


A autorregulação é a capacidade de gerir emoções, comportamento e atenção de forma ajustada à idade e ao contexto. No entanto, esta competência não nasce desenvolvida, constrói-se ao longo do tempo, através da maturação do cérebro e, sobretudo, da qualidade das relações com os adultos de referência.


Quando uma criança vive níveis elevados de ansiedade, pressão, insegurança ou

sobrecarga, o sistema nervoso entra em estado de alerta. Nestes momentos, o cérebro prioriza a sobrevivência e não a aprendizagem, o autocontrolo ou a atenção. É por isso que surgem comportamentos como distração, impulsividade, irritabilidade, choro frequente ou regressões. Do ponto de vista científico, estes comportamentos não são intencionais, são respostas adaptativas a um organismo em stress.


Um erro comum, embora compreensível, é responder a estes sinais com mais exigência, mais repreensões ou maior pressão para “se portar bem”. Este tipo de resposta tende a aumentar ainda mais a ativação emocional da criança, perpetuando o ciclo de desregulação. Pelo contrário, a validação emocional, previsibilidade e vínculo seguro estão associadas a melhorias sustentadas no comportamento e na atenção.


Mas o que significa isto na prática? Significa que, perante uma criança emocionalmente desregulada, a prioridade não deve ser corrigir de imediato o comportamento, mas ajudar a criança a acalmar o corpo e as emoções. Falar num tom calmo, reduzir estímulos, nomear emoções, dizendo por exemplo “parece que estás muito zangado” ou “isto foi difícil para ti” e transmitir disponibilidade, como “estou aqui para ajudar”, são estratégias simples. Só depois da criança estar mais calma é que faz sentido ensinar, corrigir ou estabelecer consequências.


Outro ponto fundamental, é a importância das rotinas e da previsibilidade. Crianças com dificuldades de autorregulação beneficiam de estruturas claras, instruções simples e tarefas divididas em pequenos passos. O reforço positivo do esforço, e não apenas do resultado,contribui para o desenvolvimento da motivação, através de mecanismos neurobiológicos associados à regulação dopaminérgica.


Não podemos ignorar o papel do ambiente familiar. Pais cansados ou sob stress prolongado têm naturalmente mais dificuldade em manter respostas consistentes e reguladoras. Cuidar do bem-estar dos adultos é parte essencial do processo. Pequenos momentos de pausa, partilha de responsabilidades e apoio especializado quando necessário fazem diferença não apenas para os pais, mas para a criança.


Compreender o comportamento como um sinal, e não apenas como um problema, permite intervir de forma mais eficaz. Quando a criança se sente segura, compreendida e acompanhada, o cérebro volta a estar disponível para aprender, cooperar e desenvolver autonomia.



Psicóloga Catarina Pinto

Cédula Profissional Nº: 30572

Membro Efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses

 
 
 

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