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O que os teus gatilhos emocionais dizem sobre ti

  • 1 day ago
  • 3 min read

Estás numa conversa banal e, de repente, uma frase específica, o tom de voz de alguém ou até mesmo um breve silêncio faz o teu coração acelerar, o estômago apertar ou uma onda de irritação assumir o controlo. Em segundos, a harmonia desaparece e vês-te imerso numa reação emocional desproporcional ao que acabou de acontecer. No jargão popular e nas redes sociais, costumamos dizer de forma quase leviana que algo nos deu um gatilho. Mas o que realmente se esconde por trás desta expressão que invadiu o nosso vocabulário quotidiano?


Para compreender o peso desta palavra, precisamos de viajar até à sua origem na psicologia clínica. O conceito de gatilho (trigger) nasceu historicamente nos estudos sobre a Perturbação de Stresse Pós-Traumático (PSPT), associado inicialmente a veteranos de guerra e sobreviventes de catástrofes. Observava-se que estímulos sensoriais específicos, como o estrondo de um fogo de artifício ou um odor característico, funcionavam literalmente como o gatilho de uma arma, disparando instantaneamente no funcionamento psíquico daquelas pessoas a sensação vívida de estarem de volta ao cenário traumático original.


Na psicologia contemporânea e de acordo com as investigações em neurobiologia do stresse desenvolvidas pelo psiquiatra Bessel van der Kolk, este conceito foi expandido para explicar as nossas reações diárias. Quando vivenciamos um gatilho emocional hoje, a amígdala, que é a estrutura cerebral responsável pelo nosso sistema de alerta, interpreta o cenário atual como uma ameaça iminente. Ela faz isso porque encontrou no presente alguma semelhança com uma dor ou rejeição do passado, ativando uma resposta de sobrevivência antes mesmo que o nosso córtex pré-frontal, a área racional, consiga processar o que está a acontecer.


Desta forma, os gatilhos emocionais funcionam como um espelho retrovisor da nossa história de vida. Eles raramente dizem respeito ao evento presente em si; eles comunicam as nossas vulnerabilidades, as nossas necessidades não atendidas e as marcas do nosso desenvolvimento. Se sentes uma raiva avassaladora quando és interrompido numa reunião de trabalho, por exemplo, o gatilho pode não ser a interrupção em si, mas a reativação de uma memória de infância em que a tua voz foi constantemente invalidada ou silenciada.


Há, portanto, uma dualidade nestas reações. O lado mau é evidente: o desgaste psicológico, os conflitos interpessoais e a sensação incómoda de perder o controlo sobre as próprias emoções. No entanto, existe um lado bom profundamente funcional. Os gatilhos atuam como um scanner de diagnóstico do nosso mundo interno. Eles apontam com precisão exatamente para onde precisamos cuidar. Longe de serem apenas dificuldades a serem solucionadas, eles são bússolas que revelam onde estão as nossas feridas abertas.


Em muitos casos, a intensidade de um gatilho serve como a fronteira que nos conecta ao conceito de trauma. Na psicotraumatologia moderna, compreende-se que os traumas não são apenas grandes eventos catastróficos, mas também as microviolências e as falhas crónicas de suporte emocional que vivenciamos ao longo da vida. Quando uma dor antiga não é integrada ou processada pelo nosso organismo, ela permanece fragmentada. O gatilho é o fio condutor que puxa essa dor para a superfície, desregulando o nosso sistema nervoso e empurrando-nos para fora daquilo que o neurocientista Daniel Siegel designa por Janela de Tolerância, que corresponde à zona ideal onde conseguimos processar as emoções sem entrar em pânico (hiperativação) ou congelar (hipoativação).


Aprender a lidar com esta dinâmica exige o desenvolvimento de uma autoverificação consciente. O primeiro passo é a identificação corpórea, notando onde o gatilho ressoa fisicamente, como uma tensão nos ombros ou uma alteração na respiração. A psicologia baseada em evidências, nomeadamente através da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) estruturada por Steven Hayes, sugere que utilizemos técnicas de regulação conhecidas como bottom-up, ou seja, acalmar o sistema nervoso através do corpo. Diante de uma ativação, uma pausa intencional acompanhada de respirações diafragmáticas lentas ajuda a sinalizar ao cérebro que estás seguro no momento presente. Em seguida, a prática de nomear a emoção sem julgamentos valida a experiência sem que te tornes refém dela. Contudo, mapear estes caminhos nem sempre é uma jornada solitária.


Quando os gatilhos se tornam crónicos, começam a prejudicar os teus relacionamentos, o teu desempenho profissional ou geram um estado constante de ansiedade e hipervigilância, significa que a hora de procurar a ajuda de um profissional de psicologia clínica chegou. Afinal, olhar para o que os teus gatilhos dizem sobre ti é o primeiro passo para reescrever a tua própria história.


Escrito por: Psicóloga Joana Moreira

Cédula Profissional: nº 136054

Referências Bibliográficas

  • Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2011). Acceptance and Commitment Therapy: The process and practice of mindful change (2nd ed.). The Guilford Press.

  • Siegel, D. J. (2020). The Developing Mind: How relationships and the brain interact to shape who we are (3rd ed.). The Guilford Press.

  • Van der Kolk, B. A. (2014). The Body Keeps the Score: Brain, mind, and body in the healing of trauma. Viking.


 
 
 

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