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Porque algumas pessoas funcionam “bem” mesmo estando deprimidas?

  • há 13 minutos
  • 5 min de leitura

“MAS ELA PARECE TÃO BEM…!”


Há pessoas que continuam a trabalhar, a estudar, a cuidar dos filhos, a responder a mensagens, a cumprir compromissos e até a sorrir enquanto, por dentro, sentem que estão a chegar ao limite.


Por vezes, são precisamente as pessoas de quem menos suspeitamos.


A ideia de que uma pessoa deprimida deixa de funcionar completamente pode dificultar o reconhecimento do sofrimento psicológico. A depressão nem sempre aparece como alguém que deixa de sair da cama ou abandona todas as suas responsabilidades. Em algumas pessoas, pode coexistir com um funcionamento externo aparentemente intacto.


É possível continuar a funcionar e, simultaneamente, estar a sofrer muito. Uma das características mais difíceis de compreender na depressão é que aquilo que vemos por fora nem sempre corresponde àquilo que está a acontecer por dentro. Uma pessoa pode continuar a apresentar um bom desempenho profissional, manter uma rotina, cuidar da família e participar socialmente, enquanto experiencia:

• cansaço constante;

• tristeza ou vazio persistente;

• perda de prazer e interesse;

• dificuldade em sentir motivação;

• alterações do sono ou do apetite;

• sentimentos de culpa ou de inutilidade;

• dificuldade de concentração;

• irritabilidade;

• pensamentos negativos recorrentes;

• sensação de estar emocionalmente desligada;

• ou uma profunda sensação de esforço para fazer coisas que antes eram

naturais.


Por isso, a pergunta “Mas como pode estar deprimida se continua a trabalhar?” parte de uma falsa ideia: a de que funcionamento e sofrimento são opostos. Não são. Uma pessoa pode funcionar muito bem externamente e estar a pagar um preço elevado internamente.


Quando funcionar passa a ser uma forma de sobreviver:

Algumas pessoas desenvolveram, ao longo da vida, uma enorme capacidade de cumprir, controlar, antecipar problemas e responder às expectativas dos outros.

São frequentemente pessoas muito responsáveis, exigentes consigo próprias e habituadas a “dar conta de tudo”.

Quando começam a sentir-se deprimidas, podem aumentar ainda mais o esforço.

Levantam-se porque têm de se levantar.

Vão trabalhar porque não podem faltar.

Cuidam dos filhos porque não podem deixar de cuidar.

Respondem às mensagens porque não querem preocupar ninguém.

Continuam a produzir porque sentem que não têm o direito de parar.

Por fora, parece força.

Por dentro, pode existir exaustão.

É importante distinguir resiliência de sobrecarga. Conseguir continuar a fazer aquilo que é necessário não significa necessariamente que a pessoa esteja bem.

O perfeccionismo pode esconder sofrimento…auto exigência.

Em algumas pessoas, existe uma relação muito forte entre sofrimento depressivo e padrões elevados de exigência.


A pessoa pode pensar:

“Tenho de conseguir.”

“Não posso falhar.”

“Os outros contam comigo.”

“Não posso mostrar que estou mal.”

“Há pessoas que têm problemas muito maiores.”

“Tenho tudo para estar bem, por isso não devia sentir-me assim.”


Estas ideias podem levar a pessoa a minimizar aquilo que sente e a continuar a

funcionar a qualquer custo. E quanto melhor consegue cumprir as suas responsabilidades, mais difícil pode ser para os outros perceberem que existe sofrimento. Por vezes, a própria pessoa só se permite reconhecer que não está bem quando já está completamente esgotada.

A depressão também pode aparecer como irritabilidade, cansaço ou vazio. Nem sempre a depressão é vivida como tristeza.Algumas pessoas descrevem sobretudo:

“Não sinto nada.”

“Estou cansado de tudo.”

“Faço as coisas, mas parece que estou em piloto automático.”

“Já não tenho prazer nas coisas que antes gostava.”

“Qualquer tarefa parece exigir um esforço enorme.”

“Estou sempre irritado.”

“Só quero estar sozinho.”


Por isso, olhar apenas para a tristeza pode fazer com que alguns quadros depressivos

passem despercebidos. O mais importante é olhar para a mudança em relação ao funcionamento habitual da pessoa, a duração dos sintomas, a intensidade do sofrimento e o impacto que têm na sua vida.


“Se consigo fazer tudo, então não estou assim tão mal.”

Este pensamento merece particular atenção.

O sofrimento psicológico não deve ser medido apenas pela quantidade de coisas que uma pessoa ainda consegue fazer.

Uma pessoa pode continuar a trabalhar oito horas por dia e, depois, passar o resto do dia sem energia para mais nada.

Pode cuidar dos filhos e sentir que está emocionalmente ausente.

Pode obter excelentes resultados e, simultaneamente, sentir-se profundamente insegura e incapaz.

Pode estar rodeada de pessoas e sentir-se completamente sozinha.

Pode sorrir numa fotografia e chorar quando chega a casa.

O funcionamento visível não conta toda a história.

Porque é que estas pessoas nem sempre pedem ajuda?

Porque muitas vezes nem sequer se reconhecem como alguém que “precisa” de ajuda.


Podem pensar:

“Eu ainda consigo trabalhar.”

“Há pessoas com problemas muito maiores.”

“Tenho uma vida boa.”

“Não tenho motivos para estar assim.”

“É só uma fase.”

“Quando tiver menos trabalho, passa.”


Ou podem simplesmente ter aprendido a viver durante tanto tempo em modo de sobrevivência que já não conseguem distinguir entre estar funcional e estar bem. Mas pedir ajuda psicológica não exige que uma pessoa esteja incapaz de funcionar. Não é preciso chegar ao limite para merecer cuidado. O que podemos fazer quando reconhecemos estes sinais? Se reconhecer este padrão em si próprio, ou em alguém próximo, talvez a pergunta mais importante não seja:


“Consegue continuar a funcionar?”

Mas sim:

“A que custo está a conseguir funcionar?”

Vale a pena prestar atenção às mudanças persistentes no humor, no sono, na energia, no prazer, na concentração, nas relações e na forma como a pessoa se vê a si própria. E, sobretudo, levar o sofrimento a sério mesmo quando, por fora, “parece estar tudo bem”.


A depressão pode esconder-se atrás de um desempenho impecável. Por isso, às vezes, a pessoa que mais precisa de ouvir “Como estás realmente?” é precisamente aquela que responde sempre:


“Estou bem.”


E talvez a pergunta seguinte possa ser:

“E como tens estado quando ninguém está a ver?”


5 sinais de que funcionar bem pode estar a ter um custo demasiado alto

Nem sempre é fácil perceber que estamos a ultrapassar os nossos limites, sobretudo quando continuamos a cumprir todas as nossas responsabilidades.


Pode valer a pena parar e perguntar:

1. “Estou a fazer tudo, mas já não tenho energia para mim.”

Consigo cumprir trabalho, estudos ou responsabilidades familiares, mas sinto que não sobra energia para descansar, relacionar-me ou fazer coisas de que gosto.

2. “Estou a funcionar em piloto automático.”

Faço aquilo que tenho de fazer, mas sinto pouco prazer, entusiasmo ou ligação emocional com o que acontece à minha volta.

3. “Ninguém percebe que não estou bem.”

Continuo a sorrir, a trabalhar e a responder que está tudo bem, enquanto interiormente sinto tristeza, vazio, ansiedade ou exaustão.

4. “Não me permito parar.”

Mesmo quando estou cansado ou emocionalmente fragilizado, sinto que tenho de continuar, porque parar seria falhar, desiludir alguém ou mostrar fraqueza.5. “Só vou pedir ajuda quando já não conseguir.”

Tenho tendência para minimizar o que sinto porque ainda consigo cumprir as minhas obrigações.

Uma pergunta importante:

Não pergunte apenas “Consigo continuar?”

Pergunte também:

“Quanto me está a custar continuar desta forma?”

Se a resposta for “cada vez mais”, talvez seja altura de não esperar pelo limite para

procurar ajuda.

Na Clínica Privada do Porto, reconhecer o sofrimento psicológico é muitas vezes o

primeiro passo para começar a transformá-lo. Se sente que tem mantido a sua vida a funcionar à custa de um esforço cada vez maior, ou se reconhece estes sinais em alguém próximo, procurar apoio psicológico pode ser uma forma de compreender o que está a acontecer e encontrar novas formas de lidar com aquilo que está a sentir.


Não é preciso deixar de funcionar para admitir que não está bem.


Cuidar da saúde mental também significa pedir ajuda antes de chegar ao limite. Escrito por: Psicóloga Ana Escobar Cédula Profissional: 024155

 
 
 

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