Raiva infantil: o que está por trás?
- há 11 horas
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"Desliga o telemóvel."
"Só mais cinco minutos!"
Em poucos segundos, a conversa transforma-se numa discussão. A voz sobe de tom,
surgem lágrimas ou respostas desafiantes. No final, os pais sentem que perderam o
controlo e os filhos sentem que não foram compreendidos. Se esta situação lhe é familiar,
saiba que acontece em muitas famílias.
Cada vez mais conflitos surgem em torno dos ecrãs. No entanto, aquilo que parece ser
apenas uma discussão sobre um telemóvel, um tablet ou uma consola revela, muitas
vezes, dificuldades na gestão das emoções, necessidades de autonomia e desafios na
relação entre pais e filhos. A tecnologia não criou estes desafios, mas tornou-os mais
visíveis.
A relação pais-filhos num mundo digital
As crianças e os adolescentes crescem num contexto muito diferente daquele em que os
pais cresceram. Os ecrãs fazem parte da escola, das amizades, do entretenimento, da
aprendizagem e até da construção da identidade. Para muitos jovens, estar online é
também uma forma de pertença.
Ao mesmo tempo, os pais procuram proteger os filhos dos riscos do uso excessivo da
tecnologia sem os afastar das experiências que fazem parte da realidade atual. Não existe
uma solução perfeita, mas sim a necessidade de encontrar um equilíbrio entre proteção e
autonomia, sustentado numa relação segura.
Porque é tão difícil desligar?
Tal como os adultos têm dificuldade em interromper uma atividade de que gostam,
também as crianças sentem essa resistência.
Jogos, vídeos e redes sociais são concebidos para captar a atenção e proporcionar
recompensas imediatas. Quando chega o momento de desligar, essa interrupção pode
gerar frustração. Além disso, as áreas do cérebro responsáveis pelo autocontrolo e pela
regulação emocional ainda estão em desenvolvimento, tornando mais difícil gerir essas
emoções.
Também os pais chegam muitas vezes cansados e com menor disponibilidade emocional.
Assim, um pedido simples pode rapidamente transformar-se num conflito, criando um
ciclo em que quanto mais um insiste, mais o outro resiste.
Quando a tecnologia deixa de ser apenas tecnologia:
Com o tempo, o telemóvel pode deixar de ser apenas um objeto.
Para a criança, pode representar autonomia e liberdade. Para os pais, segurança e
responsabilidade. A discussão deixa então de ser sobre o ecrã e passa a ser sobre quem
decide, transformando-se facilmente numa luta de poder. Quando o objetivo passa a ser
"ganhar" a discussão, a relação tende a perder espaço.
Controlar ou orientar?
Perante conflitos repetidos, é natural que os pais sintam vontade de aumentar o controlo:
retirar o telemóvel, aplicar castigos ou fiscalizar mais.Embora estas estratégias possam funcionar no imediato, nem sempre favorecem
mudanças duradouras. Quando a criança sente que não participa nas decisões, pode
aumentar a oposição para recuperar alguma autonomia.
Isto não significa abdicar dos limites. Significa distinguir entre controlar e orientar.
Controlar procura obter obediência; orientar ajuda a compreender os limites, preservando
uma relação de confiança. Quando as crianças se sentem ouvidas, tornam-se mais
disponíveis para ouvir.
Limites digitais que protegem a relação
Os limites continuam a ser essenciais, mas a forma como são estabelecidos faz diferença.
Algumas estratégias úteis incluem:
• Definir regras em momentos de calma.
• Explicar a razão dos limites.
• Avisar alguns minutos antes de terminar o tempo de ecrã.
• Envolver a criança na definição das regras, de acordo com a idade.
• Evitar usar os ecrãs como única recompensa ou castigo.
• Criar momentos diários de ligação sem tecnologia.
Mais do que controlar minutos, importa construir hábitos saudáveis e proteger a relação.
O papel da coerência
A coerência ajuda as crianças a sentirem-se seguras. Quando as regras mudam
constantemente ou os adultos transmitem mensagens diferentes, é natural que os limites
sejam testados.
Ser coerente não significa ser rígido nem perfeito. Significa manter regras e valores
consistentes ao longo do tempo. Essa previsibilidade transmite uma mensagem
importante: "Mesmo quando estás zangado, continuo aqui para te ajudar a crescer."
O que está por trás da raiva?
Na consulta, a raiva raramente é vista como o verdadeiro problema. É antes um sinal de
que existe algo mais a acontecer.
Por detrás de uma explosão emocional encontramos frequentemente frustração,
necessidade de autonomia, cansaço, insegurança, desejo de pertença ou simplesmente um
cérebro ainda em desenvolvimento, a aprender a regular emoções intensas.
Quando conseguimos olhar para além do comportamento, deixamos de ver apenas uma
criança "difícil" e passamos a ver uma criança que ainda está a desenvolver competências
emocionais e precisa de adultos capazes de manter os limites sem perder a ligação.
Educar não é evitar conflitos. É aproveitar esses momentos para ensinar que a raiva pode
ser expressa sem magoar, que os limites existem para proteger e que a relação continua a
ser um lugar seguro.
No fim de contas, os ecrãs podem ser o motivo da discussão, mas é a qualidade da relação
que determina a forma como ela termina. Referências
Gottman, J., & DeClaire, J. (1997). The Heart of Parenting: Raising an Emotionally
Intelligent Child. Simon & Schuster.
Greene, R. W. (2021). The Explosive Child (7th ed.). Scribner.
Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2012). The Whole-Brain Child. Delacorte Press.
Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2014). No-Drama Discipline. Bantam Books.
Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema Therapy: A Practitioner's
Guide. Guilford Press. Escrito por: Ana Pinto
Cédula Profissional n.º: 30361





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