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Raiva infantil: o que está por trás?

  • há 11 horas
  • 4 min de leitura


"Desliga o telemóvel."

"Só mais cinco minutos!"

Em poucos segundos, a conversa transforma-se numa discussão. A voz sobe de tom,

surgem lágrimas ou respostas desafiantes. No final, os pais sentem que perderam o

controlo e os filhos sentem que não foram compreendidos. Se esta situação lhe é familiar,

saiba que acontece em muitas famílias.

Cada vez mais conflitos surgem em torno dos ecrãs. No entanto, aquilo que parece ser

apenas uma discussão sobre um telemóvel, um tablet ou uma consola revela, muitas

vezes, dificuldades na gestão das emoções, necessidades de autonomia e desafios na

relação entre pais e filhos. A tecnologia não criou estes desafios, mas tornou-os mais

visíveis.

A relação pais-filhos num mundo digital

As crianças e os adolescentes crescem num contexto muito diferente daquele em que os

pais cresceram. Os ecrãs fazem parte da escola, das amizades, do entretenimento, da

aprendizagem e até da construção da identidade. Para muitos jovens, estar online é

também uma forma de pertença.

Ao mesmo tempo, os pais procuram proteger os filhos dos riscos do uso excessivo da

tecnologia sem os afastar das experiências que fazem parte da realidade atual. Não existe

uma solução perfeita, mas sim a necessidade de encontrar um equilíbrio entre proteção e

autonomia, sustentado numa relação segura.

Porque é tão difícil desligar?

Tal como os adultos têm dificuldade em interromper uma atividade de que gostam,

também as crianças sentem essa resistência.

Jogos, vídeos e redes sociais são concebidos para captar a atenção e proporcionar

recompensas imediatas. Quando chega o momento de desligar, essa interrupção pode

gerar frustração. Além disso, as áreas do cérebro responsáveis pelo autocontrolo e pela

regulação emocional ainda estão em desenvolvimento, tornando mais difícil gerir essas

emoções.

Também os pais chegam muitas vezes cansados e com menor disponibilidade emocional.

Assim, um pedido simples pode rapidamente transformar-se num conflito, criando um

ciclo em que quanto mais um insiste, mais o outro resiste.

Quando a tecnologia deixa de ser apenas tecnologia:

Com o tempo, o telemóvel pode deixar de ser apenas um objeto.

Para a criança, pode representar autonomia e liberdade. Para os pais, segurança e

responsabilidade. A discussão deixa então de ser sobre o ecrã e passa a ser sobre quem

decide, transformando-se facilmente numa luta de poder. Quando o objetivo passa a ser

"ganhar" a discussão, a relação tende a perder espaço.

Controlar ou orientar?

Perante conflitos repetidos, é natural que os pais sintam vontade de aumentar o controlo:

retirar o telemóvel, aplicar castigos ou fiscalizar mais.Embora estas estratégias possam funcionar no imediato, nem sempre favorecem

mudanças duradouras. Quando a criança sente que não participa nas decisões, pode

aumentar a oposição para recuperar alguma autonomia.

Isto não significa abdicar dos limites. Significa distinguir entre controlar e orientar.

Controlar procura obter obediência; orientar ajuda a compreender os limites, preservando

uma relação de confiança. Quando as crianças se sentem ouvidas, tornam-se mais

disponíveis para ouvir.

Limites digitais que protegem a relação

Os limites continuam a ser essenciais, mas a forma como são estabelecidos faz diferença.

Algumas estratégias úteis incluem:

• Definir regras em momentos de calma.

• Explicar a razão dos limites.

• Avisar alguns minutos antes de terminar o tempo de ecrã.

• Envolver a criança na definição das regras, de acordo com a idade.

• Evitar usar os ecrãs como única recompensa ou castigo.

• Criar momentos diários de ligação sem tecnologia.

Mais do que controlar minutos, importa construir hábitos saudáveis e proteger a relação.

O papel da coerência

A coerência ajuda as crianças a sentirem-se seguras. Quando as regras mudam

constantemente ou os adultos transmitem mensagens diferentes, é natural que os limites

sejam testados.

Ser coerente não significa ser rígido nem perfeito. Significa manter regras e valores

consistentes ao longo do tempo. Essa previsibilidade transmite uma mensagem

importante: "Mesmo quando estás zangado, continuo aqui para te ajudar a crescer."

O que está por trás da raiva?

Na consulta, a raiva raramente é vista como o verdadeiro problema. É antes um sinal de

que existe algo mais a acontecer.

Por detrás de uma explosão emocional encontramos frequentemente frustração,

necessidade de autonomia, cansaço, insegurança, desejo de pertença ou simplesmente um

cérebro ainda em desenvolvimento, a aprender a regular emoções intensas.

Quando conseguimos olhar para além do comportamento, deixamos de ver apenas uma

criança "difícil" e passamos a ver uma criança que ainda está a desenvolver competências

emocionais e precisa de adultos capazes de manter os limites sem perder a ligação.

Educar não é evitar conflitos. É aproveitar esses momentos para ensinar que a raiva pode

ser expressa sem magoar, que os limites existem para proteger e que a relação continua a

ser um lugar seguro.

No fim de contas, os ecrãs podem ser o motivo da discussão, mas é a qualidade da relação

que determina a forma como ela termina. Referências

Gottman, J., & DeClaire, J. (1997). The Heart of Parenting: Raising an Emotionally

Intelligent Child. Simon & Schuster.

Greene, R. W. (2021). The Explosive Child (7th ed.). Scribner.

Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2012). The Whole-Brain Child. Delacorte Press.

Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2014). No-Drama Discipline. Bantam Books.

Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema Therapy: A Practitioner's

Guide. Guilford Press. Escrito por: Ana Pinto

Cédula Profissional n.º: 30361

 
 
 

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