Porque as crianças não conseguem “acalmar-se sozinhas”
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Muitas vezes esperamos que as crianças consigam “acalmar-se sozinhas” diante de
uma birra, de um choro intenso, de uma frustração ou de um momento perturbador.
Contudo, a verdade é que a autorregulação não nasce de forma espontânea; constrói-se na
relação.
Quando um adulto está stressado, tende a possuir - ou deveria possuir - recursos
internos que lhe permitem parar, pensar e reorganizar-se emocionalmente. Uma criança
ainda não os tem. O cérebro infantil encontra-se em desenvolvimento e não apresenta
maturidade suficiente para gerir emoções intensas de forma autónoma. Do ponto de vista
neurobiológico, esta dificuldade está associada à imaturidade do córtex pré-frontal, região
cerebral responsável por funções executivas como o controlo de impulsos, a tomada de
decisão e a regulação emocional. Em situações de stress, frustração ou ameaça percebida,
verifica-se uma maior ativação do sistema límbico, particularmente da amígdala, reduzindo
a capacidade da criança para mobilizar estratégias racionais de autorregulação.
Nos mais pequenos, as emoções são vividas de forma muito diferente de nós
adultos: as suas emoções são muito mais intensas e podem ir do 8 ao 80 em segundos. O
que a eles os deixa frustrados, angustiados ou com medo é muito diferente do que nos
deixa a nós. Além disso, as suas capacidades de comunicação ainda estão em
desenvolvimento, o que dificulta a expressão e compreensão do que sentem. Por isso,
muitas vezes as expectativas dos adultos relativamente ao comportamento infantil
encontram-se desajustadas ao nível do desenvolvimento da criança. Uma peça de puzzle
que não encaixa ou um copo de água da cor “errada” podem ser razões suficientes para
desencadear uma grande birra.
Nestas idades, as birras são frequentes quando os mais pequeninos são literalmente
abalroados por emoções muito fortes. É importante reconhecer que estes comportamentos
não surgem com o objetivo de manipular, prejudicar ou tornar a vida dos adultos num
inferno, não é nada pessoal. Eles próprios estão a passar um mau bocado quando se
descontrolam e por estarem em sofrimento emocional, não podemos esperar que nesses
momentos se “portem bem” ou “sejam educados”, pois na maior parte das vezes estão com
raiva, angústia ou frustração e vão exprimir essas emoções a bater, chorar, gritar, entre
outros. Se os adultos reagirem também com raiva, gritos ou agressividade, a situação tende
a intensificar-se, sem que a criança aprenda efetivamente a regular-se. É aqui que surge a
importância da corregulação, um processo fundamental para o desenvolvimento emocional
saudável. A corregulação acontece quando o adulto funciona como um regulador externo,
através do tom de voz, dos afetos, dos gestos e das entoações, levando as crianças asentirem-se sintonizadas com alguém importante e capaz de lhes proporcionar uma
sensação de segurança.
As crianças desenvolvem a autorregulação através de relações afetuosas, seguras e
responsivas, bem como da observação dos comportamentos de regulação emocional dos
adultos. Trata-se de um processo que se inicia desde os primeiros meses de vida, evolui
significativamente até aos 6-7 anos, mas que só irá terminar de se desenvolver na idade
adulta. Por exemplo, os bebés podem chuchar no dedo para se sentirem confortáveis ou
desviarem o olhar numa brincadeira se estiverem a ficar cansados. Já uma criança pequena
pode conseguir esperar breves momentos pela comida, mas ainda sentir dificuldade em
partilhar um brinquedo muito desejado.
De acordo com a teoria de vinculação proposta por John Bowlby (1982), a presença
de figuras cuidadoras sensíveis e disponíveis funciona como uma base segura, permitindo à
criança explorar o mundo com confiança (Bretherton, 2013). Além disso, Ainsworth (1991)
reforça esta perspetiva ao demonstrar que crianças com relações de vinculação seguras
têm as suas necessidades de proximidade, afeto e segurança emocional respondidas de
forma consistente pelas figuras cuidadoras. Essa responsividade permite-lhes explorar,
brincar e expressar emoções com maior confiança, apoiando-se na disponibilidade
emocional dos pais (Bretherton, 2013).
Lembre-se que as crianças aprendem a regular-se sentindo-se reguladas. A
autorregulação não se ensina apenas através de palavras, mas sobretudo através do
exemplo, da presença e da forma como o adulto gere as próprias emoções.
Escrito por: Psicóloga Joana Moreira
Cédula Profissional nº 136054
Referências Bibliográficas:
Ainsworth, M. (1991). Attachments and other affectional bonds across the life cycle.
In C. M. Parkes, J. Stevenson-Hinde & P. Marris (Eds.), Attachment across the life cycle (pp.
33-51). London: Routledge.
Bowlby, J. (1982). Attachment and loss: Retrospect and prospect. American Journal
of Orthopsychiatry, 52(4), 664–678. https://doi.org/10.1111/j.1939-0025.1982.tb01456.x
Bretherton, I. (2013). The origins of attachment theory: John Bowlby and Mary
Ainsworth. In S. Goldberg, R. Muir & J. kerr (Eds.), Attachment Theory (pp. 759-775). New
York: Routledge.





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