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Porque as crianças não conseguem “acalmar-se sozinhas”

  • 6 hours ago
  • 3 min read

Muitas vezes esperamos que as crianças consigam “acalmar-se sozinhas” diante de

uma birra, de um choro intenso, de uma frustração ou de um momento perturbador.

Contudo, a verdade é que a autorregulação não nasce de forma espontânea; constrói-se na

relação.

Quando um adulto está stressado, tende a possuir - ou deveria possuir - recursos

internos que lhe permitem parar, pensar e reorganizar-se emocionalmente. Uma criança

ainda não os tem. O cérebro infantil encontra-se em desenvolvimento e não apresenta

maturidade suficiente para gerir emoções intensas de forma autónoma. Do ponto de vista

neurobiológico, esta dificuldade está associada à imaturidade do córtex pré-frontal, região

cerebral responsável por funções executivas como o controlo de impulsos, a tomada de

decisão e a regulação emocional. Em situações de stress, frustração ou ameaça percebida,

verifica-se uma maior ativação do sistema límbico, particularmente da amígdala, reduzindo

a capacidade da criança para mobilizar estratégias racionais de autorregulação.

Nos mais pequenos, as emoções são vividas de forma muito diferente de nós

adultos: as suas emoções são muito mais intensas e podem ir do 8 ao 80 em segundos. O

que a eles os deixa frustrados, angustiados ou com medo é muito diferente do que nos

deixa a nós. Além disso, as suas capacidades de comunicação ainda estão em

desenvolvimento, o que dificulta a expressão e compreensão do que sentem. Por isso,

muitas vezes as expectativas dos adultos relativamente ao comportamento infantil

encontram-se desajustadas ao nível do desenvolvimento da criança. Uma peça de puzzle

que não encaixa ou um copo de água da cor “errada” podem ser razões suficientes para

desencadear uma grande birra.

Nestas idades, as birras são frequentes quando os mais pequeninos são literalmente

abalroados por emoções muito fortes. É importante reconhecer que estes comportamentos

não surgem com o objetivo de manipular, prejudicar ou tornar a vida dos adultos num

inferno, não é nada pessoal. Eles próprios estão a passar um mau bocado quando se

descontrolam e por estarem em sofrimento emocional, não podemos esperar que nesses

momentos se “portem bem” ou “sejam educados”, pois na maior parte das vezes estão com

raiva, angústia ou frustração e vão exprimir essas emoções a bater, chorar, gritar, entre

outros. Se os adultos reagirem também com raiva, gritos ou agressividade, a situação tende

a intensificar-se, sem que a criança aprenda efetivamente a regular-se. É aqui que surge a

importância da corregulação, um processo fundamental para o desenvolvimento emocional

saudável. A corregulação acontece quando o adulto funciona como um regulador externo,

através do tom de voz, dos afetos, dos gestos e das entoações, levando as crianças asentirem-se sintonizadas com alguém importante e capaz de lhes proporcionar uma

sensação de segurança.

As crianças desenvolvem a autorregulação através de relações afetuosas, seguras e

responsivas, bem como da observação dos comportamentos de regulação emocional dos

adultos. Trata-se de um processo que se inicia desde os primeiros meses de vida, evolui

significativamente até aos 6-7 anos, mas que só irá terminar de se desenvolver na idade

adulta. Por exemplo, os bebés podem chuchar no dedo para se sentirem confortáveis ou

desviarem o olhar numa brincadeira se estiverem a ficar cansados. Já uma criança pequena

pode conseguir esperar breves momentos pela comida, mas ainda sentir dificuldade em

partilhar um brinquedo muito desejado.

De acordo com a teoria de vinculação proposta por John Bowlby (1982), a presença

de figuras cuidadoras sensíveis e disponíveis funciona como uma base segura, permitindo à

criança explorar o mundo com confiança (Bretherton, 2013). Além disso, Ainsworth (1991)

reforça esta perspetiva ao demonstrar que crianças com relações de vinculação seguras

têm as suas necessidades de proximidade, afeto e segurança emocional respondidas de

forma consistente pelas figuras cuidadoras. Essa responsividade permite-lhes explorar,

brincar e expressar emoções com maior confiança, apoiando-se na disponibilidade

emocional dos pais (Bretherton, 2013).

Lembre-se que as crianças aprendem a regular-se sentindo-se reguladas. A

autorregulação não se ensina apenas através de palavras, mas sobretudo através do

exemplo, da presença e da forma como o adulto gere as próprias emoções.

Escrito por: Psicóloga Joana Moreira

Cédula Profissional nº 136054

Referências Bibliográficas:

Ainsworth, M. (1991). Attachments and other affectional bonds across the life cycle.

In C. M. Parkes, J. Stevenson-Hinde & P. Marris (Eds.), Attachment across the life cycle (pp.

33-51). London: Routledge.

Bowlby, J. (1982). Attachment and loss: Retrospect and prospect. American Journal

of Orthopsychiatry, 52(4), 664–678. https://doi.org/10.1111/j.1939-0025.1982.tb01456.x

Bretherton, I. (2013). The origins of attachment theory: John Bowlby and Mary

Ainsworth. In S. Goldberg, R. Muir & J. kerr (Eds.), Attachment Theory (pp. 759-775). New

York: Routledge.

 
 
 

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