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Hipervigilância: quando o cérebro vive em modo de perigo

há 11 minutos
4 min de leitura

Há pessoas que sentem e se queixam que nunca conseguem verdadeiramente “desligar”. Mesmo quando está tudo aparentemente bem, o corpo permanece tenso, a mente procura sinais de perigo e qualquer alteração no ambiente pode despertar uma sensação imediata de alerta.


Esta experiência pode estar relacionada com a hipervigilância: um estado de alerta aumentado em que o cérebro permanece constantemente atento à possibilidade de algo correr mal.


Quando o cérebro aprende a estar sempre em alerta…

O nosso cérebro possui um sistema de proteção que nos permite identificar ameaças e reagir perante situações de perigo, é um mecanismo essencial e natural à nossa sobrevivência.

Quando estamos perante uma ameaça real, é natural que o organismo entre num estado de alerta: o coração acelera, os músculos ficam tensos, a atenção torna-se mais focada e o corpo prepara-se para agir.

O problema surge quando este sistema permanece ativado mesmo quando já não existe um perigo imediato.

É como se o cérebro tivesse dificuldade em perceber que o momento de perigo terminou ou que nem existiu.

Nestes casos, a pessoa pode viver num estado de vigilância quase permanente, procurando sinais que confirmem que algo não está bem. O silêncio pode ser interpretado como algo preocupante, uma expressão facial pode parecer uma crítica, uma mensagem sem resposta pode desencadear pensamentos negativos ou uma pequena alteração corporal pode ser entendida como sinal de que alguma coisa está errada.


O Cérebro está, de alguma forma, a dizer:

 “Preciso de estar atento. Não posso baixar a guarda.”

 

Como se manifesta a hipervigilância?

A hipervigilância pode manifestar-se de diferentes formas e nem sempre é facilmente reconhecida pela própria pessoa.

Pode existir uma preocupação constante, dificuldade em relaxar, necessidade de controlar o que acontece à sua volta ou uma tendência para antecipar cenários negativos.

Também podem surgir manifestações físicas, como:

  • tensão muscular;

  • dificuldade em adormecer ou sono pouco reparador;

  • sensação de estar constantemente “ligado”;

  • sobressaltos frequentes;

  • irritabilidade;

  • dificuldade de concentração;

  • cansaço persistente;

  • maior sensibilidade a sons, movimentos ou alterações no ambiente.

A nível emocional, pode existir uma sensação difícil de explicar de que “alguma coisa vai acontecer”, mesmo quando não há uma razão objetiva para isso.


“Eu sei que estou segura, mas não consigo sentir-me segura”

Esta é uma diferença importante…

Podemos racionalmente saber que estamos num lugar seguro, que aquela relação é segura ou que determinada situação já terminou. No entanto, o nosso sistema nervoso pode continuar a comportar-se como se o perigo estivesse presente.

Isto acontece porque a sensação de segurança não depende apenas daquilo que pensamos.


O corpo também precisa de aprender que pode baixar a guarda.

Por isso, dizer a alguém que vive em hipervigilância “não tens nada com que te preocupar” raramente é suficiente.

A pessoa não está simplesmente a escolher preocupar-se.

Muitas vezes, o seu sistema de proteção aprendeu que estar atento é uma forma de se manter segura.


Quando estar atento se torna exaustivo

A hipervigilância pode ser particularmente desgastante porque exige uma enorme quantidade de energia. Imagine viver com um “radar” permanentemente ligado, a analisar pessoas, situações, palavras, expressões, sons e possíveis consequências. Mesmo quando nada acontece, o cérebro continua a trabalhar. Com o tempo, esta vigilância constante pode contribuir para ansiedade, exaustão emocional, dificuldades relacionais e uma sensação de incapacidade para simplesmente estar presente e desfrutar do momento. Por vezes, a pessoa sente que precisa de controlar tudo para conseguir sentir-se segura. Mas quanto mais procura eliminar todas as possibilidades de perigo, mais o mundo pode parecer imprevisível e ameaçador.


De onde pode vir a hipervigilância?

A hipervigilância pode surgir em diferentes contextos. Pode estar associada a experiências de stress prolongado, ansiedade, acontecimentos traumáticos, relações marcadas pela insegurança ou períodos da vida em que foi necessário estar particularmente atento para lidar com situações difíceis. Para algumas pessoas, estar constantemente alerta foi, em determinado momento da sua história, uma estratégia de proteção necessária, um mecanismo de adaptação. O problema é que uma estratégia que foi útil no passado pode continuar ativa mesmo quando as circunstâncias mudaram. O cérebro aprende com aquilo que vivemos. E também pode, com tempo, segurança e acompanhamento adequado, aprender uma nova forma de responder.


É possível voltar a sentir segurança

Trabalhar a hipervigilância não significa simplesmente aprender a “pensar positivo” ou obrigar-se a relaxar. Na psicoterapia, pode ser importante compreender porque é que o sistema de alerta se tornou tão sensível, reconhecer os sinais que o corpo transmite e desenvolver formas mais seguras de lidar com pensamentos, emoções e sensações físicas. O objetivo não é deixar de estar atento. A atenção e a capacidade de reconhecer o perigo são importantes.


O objetivo é conseguir distinguir entre:

“Estou perante um perigo e o meu cérebro está a preparar-me para um perigo que não está aqui, neste momento.”

Esta diferença pode parecer pequena, mas pode transformar profundamente a forma como nos relacionamos connosco próprios e com o mundo. Porque viver constantemente em modo de perigo é cansativo. E, muitas vezes, aquilo de que precisamos não é de aprender a estar ainda mais atentos, mas de começar, gradualmente, a ensinar ao nosso cérebro e ao nosso corpo que também é seguro descansar, confiar e baixar a guarda.


Se reconhece em si este estado de alerta constante, procurar acompanhamento psicológico pode ser um passo importante para compreender o que está a acontecer e encontrar formas mais tranquilas e seguras de estar consigo e com os outros.


Escrito por: Psicóloga Rita Sousa

Cédula Profissional: 16871

 
 
 

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