Pais também falham, e isso não destrói a criança

Hoje em dia, a partilha de ideias sobre como educar os filhos, a oferta de livros, blogs e publicações nas redes sociais sobre estratégias de parentalidade parece infinita. O acesso à informação nunca foi tão fácil. Contudo, a par da curiosidade sobre o tema, surge muitas vezes uma tendência para o perfeccionismo e desenvolvem-se crenças sobre a obrigatoriedade de não falhar, pautadas por pensamentos como “tenho de educar o meu filho da maneira mais saudável possível” ou “tenho de estar sempre disponível para ele”. Deste modo, instala-se frequentemente o medo de falhar e de provocar consequências negativas no desenvolvimento da criança.
No entanto, a realidade é que o exercício da parentalidade não vem com um manual de instruções universal e definitivo, precisamente porque cada criança é única. Não existem fórmulas fixas: cada criança exige uma resposta diferente e o que funcionava ontem num determinado contexto pode já não funcionar hoje. Aceitar a imperfeição não é desistir; é aceitar a própria humanidade da parentalidade.
Em oposição à ideia de mãe ideal, o psicanalista e pediatra Donald Winnicott introduziu o conceito de “mãe suficientemente boa”. Winnicott percebeu que as crianças não precisam de pais perfeitos; pelo contrário, é através de falhas graduais e toleráveis que a criança vai desenvolvendo recursos psíquicos internos que lhe permitem construir a noção de realidade, autonomia e independência. A “mãe suficientemente boa” não é a que não comete falhas, mas sim a que se mantém disponível, presente e sensível às necessidades da criança. Na psicologia do desenvolvimento, sabe-se que um self saudável e autêntico depende largamente da capacidade de proporcionar um contexto protetor e ajustado (Rodrigues, 1999) mas, ainda assim, é através das pequenas frustrações do dia a dia que a estrutura emocional da criança se vai organizando e aprendendo a integrar experiências de satisfação e de perda.Esta dinâmica entre a adaptação e a falha é essencial para a transição da dependência absoluta para uma autonomia gradual. É através das pequenas falhas que a criança aprende a tolerar a frustração e a aceitar a realidade de que o mundo não gravita inteiramente à sua volta.
Uma infância sem falhas criaria adultos sem ferramentas para lidar com o erro, a rejeição, o
conflito ou a frustração. O que molda a saúde emocional de uma criança não é a ausência de erros, mas sim o que fazemos a seguir ao erro. Em Psicologia, chama-se a este processo Reparação.
Quando perdemos a paciência, gritamos ou reagimos de forma desproporcionada, abrimos uma rutura na ligação emocional com os nossos filhos. A reparação acontece quando voltamos atrás, procuramos fechar essa ferida e restabelecemos a relação depois de um momento de tensão ou desencontro.
Pedir desculpa a um filho não diminui a sua autoridade; ensina-lhe responsabilidade emocional. Quando diz ao seu filho: “Desculpa por ter gritado. Estava muito cansado/a e frustrado/a, mas a culpa não foi tua. Eu devia ter lidado melhor com as minhas emoções”, está a ensinar-lhe três lições valiosas para a vida:
1. Todas as pessoas erram, até os adultos;
2. As emoções difíceis são normais, mas nós somos responsáveis pelas nossas reações e comportamentos;
3. A rutura pode ser reparada. Além disso, a própria criança é dotada de recursos que lhe permitem proteger-se, desenvolver-se e lidar com situações de maior dificuldade. As crianças são, sim, vulneráveis, mas também trazem dentro de si mecanismos psicológicos que lhes permitem adaptar-se às adversidades da vida.
Em casos mais complexos, a terapia serve precisamente para ajudar a criança a potenciar e aplicar essas capacidades que já habitam nela — ou até a construir novas ferramentas. O erro de um cuidador não “destrói” o filho; a capacidade adaptativa do ser humano é extraordinariamente rica. O facto de, enquanto pais, perdoarmos os próprios erros, respirarmos fundo e admitirmos perante nós próprios e perante os filhos que errar faz parte da aprendizagem é fundamental, e servirá de ponto de referência para que os mais novos aprendam a lidar com os seus próprios erros no futuro. Ao mostrar compaixão por si próprio quando erra, está a ensinar ao seu filho aceitação, autorregulação e humanidade. Deste modo, os pais suficientemente bons são aqueles que, ao falharem e se responsabilizarem por isso, conseguem promover um ambiente favorável ao amadurecimento emocional dos seus filhos.
Por isso, da próxima vez que sentir que “falhou”, experimente trocar a culpa pela compaixão por si próprio/a. Respire fundo e reconheça o seu limite. Repare a ligação: assim que estiver mais calmo, aproxime-se do seu filho, ponha-se à altura dos olhos dele e converse. Perdoe-se: na parentalidade, o que constrói o vínculo é a consistência da presença e do afeto ao longo dos anos — e não a perfeição de um único dia.
Escrito por: Psicóloga Alexandra Bonito
Cédula Profissional: 32261





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