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Reparação emocional: o que fazer depois de errar com os nossos filhos?

há 13 minutos
5 min de leitura

Ser pai ou mãe implica, inevitavelmente, cometer erros: desde perder a paciência, responder de forma mais brusca, interpretar mal aquilo que os filhos estão a tentar dizer, até tomar uma decisão que, mais tarde, se percebe ter sido errada ou injusta. Quando estas situações

acontecem, facilmente surge a preocupação de ter prejudicado irremediavelmente a relação.

No entanto, uma relação saudável entre pais e filhos não se caracteriza pela ausência de

momentos negativos. Pelo contrário: a investigação científica tem vindo a sugerir ao longo dos anos que os momentos de desencontro (mismatch, segundo teorizado por Tronick, 2003) fazem parte das interações normais e expectáveis entre pais e filhos. Ao longo de uma interação, pai/mãe e criança ou adolescente alternam naturalmente entre momentos de coordenação e momentos em que as suas emoções, necessidades ou comportamentos deixam de estar sincronizados. O mais importante numa relação não consiste na ausência destes momentos, mas na capacidade para recuperar depois destes ocorrerem; neste contexto, surge o conceito de “reparação”. Reparar significa conseguir recuperar a relação depois de um momento de tensão ou desencontro.

A reparação pode acontecer desde situações muito simples do dia a dia a situações mais

complexas. Frequentemente ocorre em situações tão comuns como uma criança que não

realizou uma tarefa que lhe foi atribuída, causando irritação nos pais. Em vez de deixar a

situação escalar, os adultos procuram acalmar-se, alteram o modo de comunicar com a criança e explicam novamente o que pretendem. Aos poucos, a tensão diminui e ocorre a reparação.

As primeiras experiências de reparação na relação com os cuidadores podem contribuir para o desenvolvimento da capacidade das crianças e adolescentes para regular as suas emoções e adotar comportamentos adequados. A capacidade de transitar de estados emocionais “negativos” para estados mais “positivos” é essencial para um funcionamento emocional saudável ao longo da vida. Assim, a evidência científica tem sugerido que experiências repetidas de reparação permitem desenvolver capacidades de regulação emocional e contribuir para relações de vinculação mais seguras, diminuindo o surgimento de problemas comportamentais.

Reparar é melhor entendido não como uma técnica isolada, mas como parte de uma relação em que o adulto procura voltar a estar disponível e responsivo à criança ou adolescente depois de um momento de desencontro.


Reconhecer um erro e pedir desculpa

A reparação pode assumir diferentes formas, como recuperar a calma, ajustar a resposta à

criança/adolescente e restabelecer uma interação mais positiva. Quando o desencontro resulta de um erro do próprio adulto, pedir desculpa é uma forma de reconhecer esse erro e reparar a relação. Neste âmbito, a investigação revela que a forma como os pais pedem desculpa também parece ser relevante. Nos estudos realizados com crianças, alguns autores referem que características como a empatia e a capacidade de reconhecer a perspetiva da criança podem contribuir para pedidos de desculpa mais eficazes. Expressões de gratidão podem também ser incluídas como forma de transmitir cuidado e, simultaneamente, modelar estes comportamentos sociais. De facto, pedir desculpa permite exemplificar algo que é importante que as crianças aprendam: podemos reconhecer quando magoamos alguém, responsabilizar-nos pelo que fizemos e tentar agir de forma diferente no futuro.

Alguns estudos realizados com adolescentes caracterizam de forma mais detalhada o conteúdo dos pedidos de desculpa mais eficazes nesta população. Pedidos mais centrados na experiência do adolescente associam-se a maior satisfação das suas necessidades psicológicas, e é importante notar que a autoridade parental não parece ficar comprometida. Num pedido de desculpa, os pais podem assumir responsabilidade, exprimir arrependimento pelo erro cometido, reconhecer que determinada atitude foi errada, validar a experiência emocional do filho, bem como incluir a intenção de agir de outra forma no futuro. Pode também ser dada uma explicação para o comportamento, desde que esta assuma a responsabilidade do próprio.


Adicionalmente, o pedido de perdão pode ser feito sem pressionar o adolescente a perdoar.

Em contraste, pedidos de desculpa que incluem desculpabilizações (“não me consegui controlar”), justificações (“era para aprenderes uma lição”), atribuição de culpa ao

adolescente (“tu é que começaste”), minimização do sucedido (“não disse nada de especial”)

ou pressão para que este perdoe e ultrapasse rapidamente a situação (“já está na altura de

esqueceres isso”), tendem a ser menos eficazes na reparação da relação.


Uma reparação poderia, portanto, surgir da seguinte forma: “Desculpa pela forma como falei

contigo. Irritei-me e reagi sem pensar, mas não devia ter falado contigo daquela maneira.

Percebo que te tenha magoado. Da próxima vez, vou tentar parar antes de reagir. Espero que me consigas perdoar, mas percebo se ainda estiveres chateado comigo.” A frase exata importa menos do que o processo que ela traduz: reconhecer, assumir responsabilidade, validar, procurar reparar e voltar à relação.


Para reparar com os filhos, os pais também precisam de se regular

A parentalidade constitui uma importante fonte de stress, sobretudo quando as exigências

sentidas pelos pais ultrapassam os recursos que têm disponíveis para lhes responder. Em

períodos de maior sobrecarga, pode tornar-se mais difícil responder de forma sensível às

necessidades e emoções dos filhos. Por sua vez, as dificuldades na interação podem aumentar a tensão de ambos, criando um ciclo em que pais e filhos têm cada vez mais dificuldade em regular as suas respostas.

A regulação emocional dos pais assume, por isso, um papel importante na relação. Uma forma de lidar com emoções desagradáveis passa por procurar olhar para a situação de outra perspetiva antes de reagir. Por exemplo, perante uma criança que se recusa a cumprir um pedido, pensar “está a fazer isto para me provocar” tenderá a aumentar a irritação. Por outro lado, considerar que podem existir outras razões para aquele comportamento, sem o interpretar imediatamente como uma provocação, poderá ajudar a responder de forma diferente. Quando a emoção já está presente, pode também ser útil adotar uma atitude menos autocrítica perante as próprias dificuldades: em vez de “sou um péssimo pai/mãe por ter reagido assim”, reconhecer “não reagi como gostaria, mas posso tentar lidar com isto de outra forma”.

Estas estratégias podem ser particularmente úteis quando é necessário reparar um erro.

Reconhecer que se magoou um filho pode implicar tolerar emoções desconfortáveis, como culpa, vergonha, frustração ou a sensação de ter falhado. A capacidade de lidar com estas

emoções sem reagir imediatamente permite reconhecer o próprio erro e a experiência do filho.


Uma relação saudável não exige perfeição

A mensagem mais útil da investigação disponível relativamente a este tema é talvez a mais

simples: uma relação segura não exige que todas as interações sejam perfeitas.

As relações entre pais e filhos incluem inevitavelmente momentos de descoordenação. O

desenvolvimento saudável acontece também num contexto em que as crianças e adolescentes experimentam interações que podem correr mal e percebem que, ainda assim, é possível regressar à ligação, reorganizar o que aconteceu e manter uma relação saudável e prazerosa.

Os estudos associam essa capacidade de reparação a melhores processos de regulação na infância e mostram, em crianças mais velhas e adolescentes, associações positivas entre

pedidos de desculpas parentais e diferentes indicadores de funcionamento psicológico e relacional. Assim, a reparação emocional começa na capacidade de reconhecer o erro e na escolha do que fazer a seguir.


Escrito por: Médica Psiquiatra Mónica Santos (OM 65592)


 
 
 

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